red alert! red alert! a lebre ensandeceu!!!
"No fim de contas, o que somos, o que é cada um de nós senão uma combinatória, diferente e única, de experiências, de leituras, de imaginações?" Enrique Vila-Matas
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
desabafos duma (quase) vítima da moda III
red alert! red alert! a lebre ensandeceu!!!
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
Sorriso piedoso
Dulce Maria Cardoso
sexta-feira, 17 de novembro de 2006
terça-feira, 14 de novembro de 2006
sexta-feira, 10 de novembro de 2006
a lebre conta um conto
Era uma vez um coelhinho que nasceu numa couve. Como os pais do coelhinho nunca mais aparecessem a couve passou a cuidar dele como se do seu próprio filho se tratasse.Com ervinhas tenras que cresciam ao seu redor a couve foi criando o coelhinho dentro do seu seio até que este passou a procurar a sua própria alimentação.O coelhinho, que tinha um coração muito bondoso, retribuindo o afecto que a couve lhe dedicava considerava-a como sua verdadeira mãe.A mãe couve e o seu filhinho adoptivo foram vivendo muito felizes até que um dia uma praga de gafanhotos se abateu sobre aquelas terras.O coelhinho ao ver que aqueles insectos vorazes devoravam tudo o que era verde cobriu com o seu próprio corpo o corpo da mãe couve e assim conseguiu que os gafanhotos pouco dano lhe fizessem.Quando aqueles insectos daninhos levantaram voo os campos em volta passaram a ser um imenso deserto de areias e pedra.O pobre coelhinho, que sempre tinha vivido nas proximidades da sua mãe couve, teve de deslocar-se para muitos quilómetros de distância a fim de procurar comida.Mas já nada havia que se pudesse mastigar naquelas terras.Passaram muitos dias e o pobre coelhinho estava cada vez mais magro mais magro e faminto.Então a mãe couve disse-lhe assim: “Ouve meu filho: é a lei da vida que os velhos têm de dar o lugar aos novos, por isso só vejo uma solução: assim como tu viveste durante algum tempo no meu seio, passarei a ser eu agora a viver dentro do teu. Compreendes, meu filho, o que eu quero dizer?”O pobre coelhinho compreendeu e, embora com grande tristeza na alma não teve outro remédio, comeu a mãe.
Pedro Oom

RABBIT IN A CABBAGE PATCH AUTOMATON BY DE CAMP
terça-feira, 7 de novembro de 2006
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.
Manoel de Barros
terça-feira, 31 de outubro de 2006
trick or treat
This Is Halloween
in Tim Burton's The Nightmare Before Christmas
segunda-feira, 30 de outubro de 2006
Histórias mesmo curtas
Longed for him. Got him. Shit.
Margaret Atwood
microcontos em seis palavras
quarta-feira, 25 de outubro de 2006
domingo, 22 de outubro de 2006
ferida
Jean Genet, O estúdio de Alberto Giacometti

Alexander Liberman
sexta-feira, 6 de outubro de 2006
a lebre conta um conto
Uma vez um homem encontrou duas folhas e entrou em casa segurando-as com os braços esticados dizendo aos pais que era uma árvore.
Ao que eles disseram então vai para o pátio e não cresças na sala pois as tuas raízes podem estragar a carpete.
Ele disse eu estava a brincar não sou uma árvore e deixou cair as folhas.
Mas os pais disseram olha é outono.
Russell Edson

imagem: maggie taylor
quarta-feira, 4 de outubro de 2006
segunda-feira, 2 de outubro de 2006
Uncomfortable silences
What?
Uncomfortable silences. Why do we feel it's necessary to yak about bullshit in order to be comfortable?
I don't know. That's a good question.
That's when you know you've found somebody special. When you can just shut the fuck up for a minute and comfortably enjoy the silence.
Pulp Fiction
sexta-feira, 29 de setembro de 2006
quarta-feira, 27 de setembro de 2006
sexta-feira, 22 de setembro de 2006
saúdinha! [ para a Beatriz ]

Parabéns, pela mana da Matilde! :)
what a wonderful world, The Innocence Mission
quarta-feira, 20 de setembro de 2006
AWWW!
Jack Kerouac
On the Road

crena watson
Charlie Parker & Dizzy Gillespie (obrigada Manel)
sexta-feira, 15 de setembro de 2006
quarta-feira, 13 de setembro de 2006
O Luna Parque
Logo à entrada havia uma série de barracas de tiro ao alvo, com meninas simpáticas a chamar pela gente. Foi aí que o primo Rodrigo, ao disparar com o canhão de 12, se enganou e ficou sem a cabeça.
Havia também carrinhos com amendoins, sorvetes e aquele algodão de adoçar que nos deixava todos lambuzados. Sopeiras e magalas aos pares, de mão dada, a olhar para tudo. Vejam lá há quanto tempo isto foi!
E a Montanha Russa! Ah, a Montanha Russa, como eu gostava de andar nela! Um sábado íamos todos na Montanha Russa. No meio do entusiasmo, o tio Leocádio deu um empurrão à avó Amália, lá mesmo no alto da maior subida. Sem querer. Esborrachou-se toda cá em baixo, pobre avózinha. Tivemos pena.
Era realmente divertido. Nessas tardes fartava-me de comer tremoços e até bebia o meu pirolito.
Havia também a Grande Roda. Lá de cima via-se o Parque todo, ouvia-se a musiquinha que nos chegava como um som de distância. Era bonito. Certa vez, quando estávamos já na segunda volta, a tia Clarinda inclinou-se para ver melhor e ficou entalada nas engrenagens. Deu um certo trabalho a tirar dali os restos, coitados dos empregados.
No Comboio Fantasma foi-se o tio Geraldo. À saída, quando as portas se abriram e nos libertámos daquela escuridão medonha onde toda a gente dava gritinhos, demos por falta dele. O meu pai disse-me discretamente que devia ter sido um esqueleto que o apanhou. A verdade é que nunca mais o vimos.
E o papagaio que tirava a sina, lembram-se? Metiam-se dez tostões numa caixinha e o papagaio lá ia com o bico, zás, buscar a nossa sina. Como era engraçado!
Mas divertido, divertido mesmo, era o Grande Chicote. Levava-se cada safanão! Os carros batiam uns contra os outros e fartávamo-nos de rir. O Zézito, o filho da tia Josefa, levou um safanão tal que partiu a espinha. Era bom. Que saudade!
Depois comiam-se também umas farturas e eu até tinha direito a um copinho de abafado.
Quando chegava Outubro, com a melancolia das primeiras chuvas e as folhas douradas começando a cair das árvores, o Luna-Parque fechava e eu ficava já a pensar no ano seguinte.
Então o meu pai fazia as contas. Além de nós ali em casa, ainda sobrava o tio Inácio do Ministério, o primo Jerónimo que estava no Brasil, a prima Josefina que depois casou com o Clarimundo da Fonseca, devem estar lembrados, e mais alguns. A famíla, por esses tempos, era grande, graças a Deus.
Há quantos anos! Como o tempo passa!
Mário-Henrique Leiria

Tom Waits - Carnival
quarta-feira, 6 de setembro de 2006
sexta-feira, 1 de setembro de 2006
[saudade]
C’e gente che viene, c’e gente che va
A casa d’Irene botiglie di vino
A casa d’Irene stasera si va
Nico Fidenco- A Casa D'Irene
quarta-feira, 30 de agosto de 2006
sexta-feira, 25 de agosto de 2006
A rapariga com muitos olhos

Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.
Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.
Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.
É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.
Tim Burton
Tradução de Margarida Vale de Gato
quarta-feira, 23 de agosto de 2006
desabafos duma (quase) vítima da moda II
sexta-feira, 18 de agosto de 2006
olha a bola manel
sábado, 5 de agosto de 2006
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos

waterhose, Julia Fullerton-Batten
quarta-feira, 2 de agosto de 2006
façamos!
Elza Soares e Chico Buarque
obrigada, António :)
LET'S DO IT
Chinks do it. Japs do it
Upper Lapland little Lapps do it
Let's do it
Let's fall in love
In Spain the best upper sets do it
Lithuanians and Lits do it
Let's do it
Let's tall in love
The Dutch in old Amsterdam do it
Not to mention the Finns
Folks in Siam do it
Think of Siamese twins
Some Argentines without means do it
People say in Boston even beans do it
Let's do it
Let's fall in love
Cold Cape Cod clams
'Gainst their wish do it
Even lazy jelly fish do it
Let's do it
Let's fall in love
Electric eels I might add do it
Though it shocks'em I know
Why ask if Shad do it
Waiter bring me Shad Roe
In the shallow shoals English soles do it
Goldfish in privacy of bowls do it
Let's do it
We'll do it
Let's do it
Let's fall in love
Cole Porter
obrigada, Manuel :)
sexta-feira, 28 de julho de 2006
Here (...) is the official version of my life as a poet:
Believe it or not, there is an element of truth in this story. It’s the bit about the name
Margaret Atwood
quarta-feira, 26 de julho de 2006
quinta-feira, 20 de julho de 2006
mudanças
quarta-feira, 19 de julho de 2006
sexta-feira, 14 de julho de 2006
p o r n o g r a f i a
o que falta em Coimbra:
with a hint of cinnamon!
post sem imagem, para não ferir sensibilidades
cliquem nos links
terça-feira, 11 de julho de 2006
O doutor Serna (médico inverosímil) responde

Caro doutor Serna,
Quero manter-me jovem e moderna, todas as minhas amigas já pintaram o cabelo ou fizeram madeixas, e sentem-se como novas, deverei eu pintar o meu cabelo?
De uma leitora devidamente anónima
Cara leitora,
Uma loura queixava-se-me de anemia, de langor, de não se encontrar. O mais textual de quando me contou foi isso de não se encontrar: “ela não se encontrava”
A sua louridão dava-lhe uma cor rosada, de framboesa pálida, pondo-lhe nos olhos uns fulgores metálicos, como se os olhos fossem dois obscuros escaravelhos de reflexos fusíveis.
De facto aquela mulher exuberante estava muito frouxamente rosada, parecia um morango seco.
– Não me encontro, doutor…não me encontro…
E eu também não a encontrava.
Para dar uma ideia do que aquilo era, teria de dizer que era um doce de geleia à venda numa loja distante, lá pra Toledo. Tudo nela estava sumido, distanciado, desvanecido. Nela só viviam os olhos.
“Mas que diabo terá esta mulher?”, repetia-me eu, tentando descortinar este mistério: sendo ela tão granadina, como raio tinha ares de cubana, com aquele envelhecimento de ananás seco com que ficam as cubanas? – Chegou a parecer– me, quando ela me falava, que me escrevia, que me estava a escrever do outro lado do mar…
Os remédios para combater a fraqueza, todos os procedimentos e regimes que robustecem uma pessoa, com ela não davam resultado…
– Por que razão terá você este aspecto de mulher que viaja num transatlântico, parecendo o seu cabelo loiro estar entre os fiapos que esvoaçam por sobre a brisa marinha?...
– Não sei… Mas talvez não me encontre por estar no alto mar a bordo desse navio em que me vê.
Uma tarde, andando eu à volta do seu quarto, “auscultando as paredes” como costumo dizer, vi– me perante um grande porta-retratos de cana, um desses que parecem pequenas cortinas suspensas das paredes, provido de bolsinhas em forma de leque, onde encontrei um retrato que logo lhe mostrei, pedindo que me dissesse quem era.
– É meu – respondeu- me.
– Seu? De quando? Na outra juventude?
– Qual outra juventude? Desta… e muito desta… da única que tive e que ainda há-de durar um bom bocado…
– Mas…
Fiquei a olhar o retrato, comparando-a à fotografia. No estranho contraste que eu tinha notado residia sem dúvida a causa do seu mal. Vejam só! Aquela mulher era uma morena admirável, fogosa, gravada na vida como uma água-forte, e tinha decidido apagar-se tingindo-se de loura. Ser-se loura ou morena não é um simples capricho, decorre de uma lógica que convém não esquecer e que não pode suprimir-se. A louridão era contrária à sua natureza.
– Por que razão oxigenou os seus belos cabelos negros?
– Porque assim sou mais branca e mais rosada, porque assim se vê mais que quero agradar aos homens e divertir-me na vida… Sou mais chamativa.
– Só por isso?
– Pois, só por isso….Quer dizer…tenho medo da velhice, e como uma pessoa não vai pôr-se a tingir o cabelo na véspera de envelhecer, se eu for sempre loura, nunca hei-de ser velha…
– Muito mal pensado – repliquei eu – A dada altura uma pessoa tem forçosamente de ser velha, sem remissão … Os olhos hão-de turvar-se, a boca mirrar… Quando chegam os cabelos brancos, devemos deixa-los chegar… Seja inteligente e sensata para saber um dia ter cabelos brancos… O resto não interessa nada…Perdoe-me a rudeza, mas gostaria de a convencer de que não há nada mais idiota que uma velha de cabelo pintado… Todo o seu mal tem origem nessa oxigenação do cabelo… É essa louridão que faz que não se encontre…Precisa de se ver morena ao espelho e de viver a vida como morena…
Após algumas réplicas e algumas dúvidas, passaram os dias bastantes para se destingir, e quando por fim voltou a ser a morena que era, a sua juventude e saúde resplandeceram…
– Tinha razão… agora já “me encontro”! – Disse-me ela.
Ramon Gomez de la Serna
segunda-feira, 10 de julho de 2006
a lebre na cozinha
“Dona Milu chega da cozinha, onde comanda:
- A carne-de-sol está quase pronta, o pirão de leite também. A frigideira de maturi já está dourando no forno.
Leonora recorda-se de outra conversa e cobra:
- Por falar em comida, mãezinha, como se chama aquele doce de banana da casa da dona Aida, você ficou de me dizer…
- Doce de puta, minha filha. Dizem que tem desse doce em tudo que é casa de menina. Não é Osnar?...
- A senhora pergunta logo a mim, Marechala? Eu que não sou chegado a doces e não frequento essas casas…pergunte ao tenente Seixas que é freguês- alem de deboxado, cínico. ”
Jorge Amado, Tieta do Agreste
Para 8 pessoas:
20 bananas prata bem maduras
Canela a gosto
Cravinho a gosto
1 quilo de açúcar
Coloque o açúcar numa panela, ao lume, até começar a caramelizar. Quando estiver dourado deite um bocado de água para deslaçar o caramelo. Junte a banana cortada em rodelas e tempere com o cravinho e a canela, deixar cozinhar. Quando começar a ficar avermelhado tirar do lume.
Está pronto.

[é o manji no meio dos tachos (é um aluno dedicado)]
Pixinguinha - Lamento - Altamiro Carrilho
sexta-feira, 7 de julho de 2006
meninos e moços, cachopos e gaijos, e respectiva dama...
... que é como quem diz dos membros dos Ventilan® e dos insones
quem não foi ver (sábado passado na fnac-Coimbra), certamente não ficou mais rico, a partir de agora estejam atentos aos avisos do Henrique e... NÃO PERCAM os ensaios dos Ventilan®
é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.
seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.
somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.
só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.
Nuno Moura, in «nova asmática portuguesa», Mariposa Azual, Agosto de 1998
à parte...

obrigada
por nada
a festa
foi boa
Henrique (podemos chamar-lhe haiku-dos-bons-bocados?)
quinta-feira, 6 de julho de 2006
quarta-feira, 5 de julho de 2006
ò lebriiinhaaaaa!
Amiga Helena Sangirardi
Conforme um dia prometi
Onde, confesso que esqueci
E embora — perdoe — tão tarde
(Melhor do que nunca!) este poeta
Segundo manda a boa ética
Envia-lhe a receita (poética)
De sua feijoada completa.
Em atenção ao adiantado
Da hora em que abrimos o olho
O feijão deve, já catado
Nos esperar, feliz, de molho
E a cozinheira, por respeito
À nossa mestria na arte
Já deve ter tacado peito
E preparado e posto à parte
Os elementos componentes
De um saboroso refogado
Tais: cebolas, tomates, dentes
De alho — e o que mais for azado
Tudo picado desde cedo
De feição a sempre evitar
Qualquer contato mais... vulgar
Às nossas nobres mãos de aedo.
Enquanto nós, a dar uns toques
No que não nos seja a contento
Vigiaremos o cozimento
Tomando o nosso uísque on the rocks
Uma vez cozido o feijão
(Umas quatro horas, fogo médio)
Nós, bocejando o nosso tédio
Nos chegaremos ao fogão
E em elegante curvatura:
Um pé adiante e o braço às costas
Provaremos a rica negrura
Por onde devem boiar postas
De carne-seca suculenta
Gordos paios, nédio toucinho
(Nunca orelhas de bacorinho
Que a tornam em excesso opulenta!)
E — atenção! — segredo modesto
Mas meu, no tocante à feijoada:
Uma língua fresca pelada
Posta a cozer com todo o resto.
Feito o quê, retire-se o caroço
Bastante, que bem amassado
Junta-se ao belo refogado
De modo a ter-se um molho grosso
Que vai de volta ao caldeirão
No qual o poeta, em bom agouro
Deve esparzir folhas de louro
Com um gesto clássico e pagão.
Inútil dizer que, entrementes
Em chama à parte desta liça
Devem fritar, todas contentes
Lindas rodelas de lingüiça
Enquanto ao lado, em fogo brando
Dismilingüindo-se de gozo
Deve também se estar fritando
O torresminho delicioso
Em cuja gordura, de resto
(Melhor gordura nunca houve!)
Deve depois frigir a couve
Picada, em fogo alegre e presto.
Uma farofa? — tem seus dias...
Porém que seja na manteiga!
A laranja gelada, em fatias
(Seleta ou da Bahia) — e chega
Só na última cozedura
Para levar à mesa, deixa-se
Cair um pouco da gordura
Da lingüiça na iguaria — e mexa-se.
Que prazer mais um corpo pede
Após comido um tal feijão?
— Evidentemente uma rede
E um gato para passar a mão...
Dever cumprido. Nunca é vã
A palavra de um poeta...— jamais!
Abraça-a, em Brillat-Savarin
O seu Vinicius de Moraes
Vinicius de Moraes

quinta-feira, 29 de junho de 2006
segunda-feira, 26 de junho de 2006
sexta-feira, 23 de junho de 2006
eu tu nós

adão
Este novo ser de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me por todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais. [...] Está enevoado hoje, vem de Este; acho que nós ainda vamos ter chuva. [...] NÓS? Onde apanhei esta palavra? - o novo ser usa-a amiúde.
eva
Toda a semana segui-o e tentei travar conhecimento. Tive de ser eu a falar porque ele é tímido, mas isso não me chateia. Ele parecia contente por me ter ali e eu fartei-me de usar o socializante «nós» porque isso parecia deixá-lo orgulhoso por estar incluído em alguma coisa.
in Excertos dos diários de Adão e Eva, Mark Twain
quinta-feira, 22 de junho de 2006
maggie, maggie, olha
as arvores estão noivas:)
A senhora Rosa e o seu filho Luís tiveram de deixar, para sempre, a sua casinha de aldeia. Foi num dia destes de Primavera em que, no dizer da senhora Rosa, o tempo estava "macio como seda". Aliás, ela nunca dizia: "Está bom tempo" ou está "mau tempo", mas sim: "O tempo está a ser brandinho" quando, pela manhã,o Sol espreitava, tímido, entre as nuvens, ou: "O tempo desabafa", quando chovia a potes. E sempre que dizia "O tempo está macio como seda",isso significava que não havia calor a mais, a claridade da luz não feria os olhos e a aragem soprava leve como o fru-fru das sedas. E quando as árvores de fruto se cobriam abundantemente de flores brancas e rosas, ela avisava: "Estão noivas!" E depois, quando se vergavam sob o peso dos frutos ainda verdes, interrogava:
"Como é que estas pobres árvores vão aguentar com tanta filharada?"
Era assim a senhora Rosa, mãe de Luís.
Ilse Losa

photo
quarta-feira, 21 de junho de 2006
atenção, o concurso acabou!
terça-feira, 20 de junho de 2006
quinta-feira, 15 de junho de 2006
c o n c u r s o
quinta-feira, 8 de junho de 2006
ode a um gato lindo

Gato
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre O’Neill
sexta-feira, 2 de junho de 2006

que sera, sera, Doris Day
quinta-feira, 1 de junho de 2006
da infância
A minha infância
cheira a soalho esfregado a piaçaba
aos chocolates do meu pai aos Domingos
à camisa de noite de flanela
da minha mãe
Ao fogão a carvão
à máquina a petróleo
ao zinco da bacia de banho
Soa a janelas de guilhotina
a desvendar meia rua
surgia sempre o telhado
sustentáculo da mansarda
obstáculo da perspectiva
Nele a chuva acontecia
aspergindo ocres mais vivos
empapando ervas esquecidas
cantando com as telhas liquidamente
percutindo folhetas e caleiras
criando manchas tão incoerentes nas paredes
de onde podia emergir qualquer objecto
E havia a Dona Laura
senhora distinta
e a sua criada Rosa
que ao nosso menor salto
lesta vinha avisar
que estavam lá em baixo
as pratas a abanar no guarda-louça
O caruncho repicava nas frinchas
alongava as pernas
a casa envelhecia
Na rua das traseiras havia um catavento
veloz nas turbulências de Inverno
e eu rejeitava da boneca
a imutável expressão
A minha mãe fazia-me as tranças
antes de ir para a escola
e dizia-me muitas vezes
Não olhes para os rapazes
que é feio.
terça-feira, 30 de maio de 2006
é só para o que lhe interessa, é o que é!
num ápice quando é para ir laurear! calona! se está frio e chove, apetece-lhe ficar em casa, enroscada na manta, o dia todo no sofá a ler e a comer torradas (com muita manteiga!). agora, o calor. mais uma desculpa. de manhã, ao sair com o carro, tem a lata de pensar duas vezes se deve virar à esquerda (caminho da praia) ou à direita (caminho do tasco onde vai ganhar o tostão). é só para o que lhe interessa, é o que é! qualquer dia ainda a apanhamos a trabalhar de bikini vestido por debaixo da farda! e as tropelias em que se mete?! haviam de ver! que ganhe juízo! domingo, 28 de maio de 2006
as meninas na praia ou os conselhos da lebre em época balnear

Wear sunscreen.
If I could offer you only one tip for the future, sunscreen would be it. The long-term benefits of sunscreen have been proved by scientists, whereas the rest of my advice has no basis more reliable than my own meandering experience. I will dispense this advice now.
Enjoy the power and beauty of your youth. Oh, never mind. You will not understand the power and beauty of your youth until they've faded. But trust me, in 20 years, you'll look back at photos of yourself and recall in a way you can't grasp now how much possibility lay before you and how fabulous you really looked. You are not as fat as you imagine.
Don't worry about the future. Or worry, but know that worrying is as effective as trying to solve an algebra equation by chewing bubble gum. The real troubles in your life are apt to be things that never crossed your worried mind, the kind that blindside you at 4 p.m. on some idle Tuesday.
Do one thing every day that scares you.
Sing.
Don't be reckless with other people's hearts. Don't put up with people who are reckless with yours.
Floss.
Don't waste your time on jealousy. Sometimes you're ahead, sometimes you're behind. The race is long and, in the end, it's only with yourself.
Remember compliments you receive. Forget the insults. If you succeed in doing this, tell me how.
Keep your old love letters. Throw away your old bank statements.
Stretch.
Don't feel guilty if you don't know what you want to do with your life. The most interesting people I know didn't know at 22 what they wanted to do with their lives. Some of the most interesting 40-year-olds I know still don't.
Get plenty of calcium. Be kind to your knees. You'll miss them when they're gone.
Maybe you'll marry, maybe you won't. Maybe you'll have children, maybe you won't. Maybe you'll divorce at 40, maybe you'll dance the funky chicken on your 75th wedding anniversary. Whatever you do, don't congratulate yourself too much, or berate yourself either. Your choices are half chance. So are everybody else's.
Enjoy your body. Use it every way you can. Don't be afraid of it or of what other people think of it. It's the greatest instrument you'll ever own.
Dance, even if you have nowhere to do it but your living room.
Read the directions, even if you don't follow them.
Do not read beauty magazines. They will only make you feel ugly.
Get to know your parents. You never know when they'll be gone for good. Be nice to your siblings. They're your best link to your past and the people most likely to stick with you in the future.
Understand that friends come and go, but with a precious few you should hold on. Work hard to bridge the gaps in geography and lifestyle, because the older you get, the more you need the people who knew you when you were young.
Live in New York City once, but leave before it makes you hard. Live in Northern California once, but leave before it makes you soft. Travel.
Accept certain inalienable truths: Prices will rise. Politicians will philander. You, too, will get old. And when you do, you'll fantasize that when you were young, prices were reasonable, politicians were noble and children respected their elders.
Respect your elders.
Don't expect anyone else to support you. Maybe you have a trust fund. Maybe you'll have a wealthy spouse. But you never know when either one might run out.
Don't mess too much with your hair or by the time you're 40 it will look 85.
Be careful whose advice you buy, but be patient with those who supply it. Advice is a form of nostalgia. Dispensing it is a way of fishing the past from the disposal, wiping it off, painting over the ugly parts and recycling it for more than it's worth.
But trust me on the sunscreen.
Everybody's Free to Wear Sunscreen - Baz Luhrmann
sexta-feira, 26 de maio de 2006
pré-prenda de aniversário

#1 tó trips (lebre dixit)
#2 é, de facto, muito estranho ver um concerto destes sentada
#3 a sofia aparício não é a bettie page
#4 temos uma máscara!
#5 she said
#6 let me give to you (impending doom mix), um cine-diário inédito, com imagens dos funerais do Papa João Paulo II e de Álvaro Cunhal musicados por legendary tiger man com os dead combo, realizado por edgar pera
#7 há quem já tenha caído ao chão no gil vicente a ver um filme, a maggie foi ao chão para ouvir melhor
#8 tó trips (lebre dixit)
#9 queremos realizar curtas-metragens assim
#10 a maggie quer uma guitarra
#11 a lebre quer um baixo (aka tó trips)
#12 faltou a liberdade do cigarrito (lebre dixit)
#13 e um jameson (maggie dixit)
#14 hoje (ontem) houve legendary tiger man + nell assassin + joão doce + tó trips no TAGV
She Said (Hasyl Adkins) - legendary tiger man
(maggie rocks it)
quarta-feira, 24 de maio de 2006
sexta-feira, 19 de maio de 2006
Para o doutor scepticu

PINTAINHOS DE OURO
Pintainhos de ouro, cauda de abanico,
vão ao bebedouro, temperar o bico.
E a galinha ri-se, a de asa derribada,
toda se derriça, de se ver folgada.
Lampeirinho, o galo, todo chocalheiro,
cantando alegre, sai do seu poleiro.
E a dona da casa, toda atarefada,
recolhendo os ovos, na grande cestada.
Polhinhos alegres, como em revoada,
chilriando comem, a bela fritada.
Anda o galão, como em redor,
guarda-fiscal da sua prol.
Irmã Lúcia no álbum "no céu há uma janelinha"
segunda-feira, 15 de maio de 2006
domingo, 14 de maio de 2006
porque tu és coimbra do choupal para mim *
* apropriação e distorção das palavras de Vila-Matas ao seu amigo Manuel Herminio Monteiro - tu foste Lisboa para mim - no prefácio de Urzes
tonight we fly, Divine Comedy
photo
quarta-feira, 10 de maio de 2006
O PRIMEIRO BEIJO
O PRIMEIRO BEIJO
Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.
- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:
- Sim, já beijei antes uma mulher.
- Quem era ela? perguntou com dor.
Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.
O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.
E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.
A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.
E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.
Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.
O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.
De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.
Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.
E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.
Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.
Ele a havia beijado.
Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.
Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.
Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...
Ele se tornara homem.
Clarice Lispector


























