




post "roubado" daqui
"No fim de contas, o que somos, o que é cada um de nós senão uma combinatória, diferente e única, de experiências, de leituras, de imaginações?" Enrique Vila-Matas



do filme Edward Scissorhands







Um dia no jardim
fiquei muito espantado:
encontrei uma miúda
com olhos por todo o lado.
Era de facto encantadora
(e também assustadora!);
e, porque tinha boca para falar,
pusemo-nos a conversar.
Falámos sobre flores
e das suas aulas de poesia,
e dos problemas que teria
se tivesse miopia.
É óptimo namorar
alguém que tanto nos olha,
mas se desata a chorar
apanhamos uma molha.
Tim Burton
Tradução de Margarida Vale de Gato



à parte...

obrigada
por nada
a festa
foi boa
Henrique (podemos chamar-lhe haiku-dos-bons-bocados?)
Vinicius de Moraes


adão
Este novo ser de cabelo longo é um valente empecilho. Anda sempre à minha volta e segue-me por todo o lado. Não gosto disto; não estou habituado a ter companhia. Preferia que ficasse com os outros animais. [...] Está enevoado hoje, vem de Este; acho que nós ainda vamos ter chuva. [...] NÓS? Onde apanhei esta palavra? - o novo ser usa-a amiúde.
eva
Toda a semana segui-o e tentei travar conhecimento. Tive de ser eu a falar porque ele é tímido, mas isso não me chateia. Ele parecia contente por me ter ali e eu fartei-me de usar o socializante «nós» porque isso parecia deixá-lo orgulhoso por estar incluído em alguma coisa.
in Excertos dos diários de Adão e Eva, Mark Twain


Gato
Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pelo, frio no olhar!
De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?
Alexandre O’Neill
