Resume-se numa ignorância completa das coisas da vida, no sufocamento de todos os ímpetos, de todas as expansões naturais. Encobrem-lhe a natureza como infâmia. Mas é sabido: quanto mais nos ocultam uma coisa, maior vontade nós temos de a conhecer. E astuciosamente, matreiramente, a criança vai fazendo o possível por desvendar o que lhe escondem até descobrir toda a verdade. Ora essa verdade, se lha ocultaram, deve ser criminosa. O seu cérebro inexperiente, ainda incapaz de diferenciar o errado do verdadeiro, aceita o erro mesmo porque nos lisonjeia sempre estarmos na posse do segredo dum crime E cala-se e dissimula. Finge que nada sabe, que nada percebe; continua a ser para todos os efeitos a donzelinha inocente, comedida e casta, honra das famílias e enlevo dos poetas líricos. Eis como nasce a hipocrisia, essa hipocrisia que constitui na realidade o fundo da alma feminina. Mas, por amor de Deus, com semelhante educação, como é que havia de ser doutra forma?
Oh! A tragédia silenciosa dos vinte anos duma rapariga bem educada Um calvário pungente e mesquinho de silêncios forçados, de simulação contínua, de mentiras inúteis!
Pobres raparigas da minha idade!... Caladinhas são um encanto, mas falam e tudo está perdido! Através das suas palavras, nitidamente surge a cada passo a miséria desoladora duma educação toda errada, contrária à vida, contrária à natureza. E são risos abafados, são súbitos silêncios, rubores súbitos: Elas sabem muito bem quando se devem calar, sabem o que lhes é proibido e têm um cuidado extremo em não infringir essas proibições - justamente porque conhecem de sobejo aquilo que o convencionalismo lhes manda ignorar. Diante das mães e das tias, é claro, ou da gente de cerimónia. A sós com as companheiras, muda a conversa de rumo e só do proibido se fala. Atascam-se então no lodo que lhes é vedado palminhar descalças, e as tristes não vêem que esse lodo foi o que uma sociedade torpe fez da água límpida, da água cristalina e puríssima onde, sem crime, podiam mergulhar todas nuas.
Cegas elas próprias, educarão mais tarde identicamente as filhas. E os homens clamam no seu orgulho revoltante de machos:
- A mulher é um ser inferior em geral de pouca inteligência; fútil, má e falsa.
Mas decerto. É isso. É isso porque a fizeram assim. Fizeram-na assim os homens, e ela mesma colaborou na sua destruição. As mães são as piores inimigas do seu sexo.
Pobres raparigas da minha idade, criaturas de graça, cheias de vida, sadias, robustas, de lábios frescos e rosados, de seios erguidos, de corpos flexíveis; em nome dos bons-princípios, esvaziaram-vos os cérebros, trocaram-vos as almas!...
Mário de Sá Carneiro
3 comentários:
Lindo! Lembra-me um ebook que li hoje: "The princess and the Penis". ;)
A 1a da direita
tem ar de brochar bem.
porque são os olhos mais bonitos,
e,
o que é um broche sem contato visual?...
hein?...
o
que
é?
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